Introdução
Os termos “infocommunication” em inglês e “infocomunicação” em português referem-se à relação interdependente das tecnologias da informação e da comunicação em diversos contextos, como os organizacionais, os sociais e pessoais. Ambos os termos destacam a integração e o reforço mútuo dessas tecnologias que criam formas de comunicação e troca de informação específicas, materializadas em ambientes digitais. O termo é utilizado para descrever o impacto de tecnologias, tais como a Internet, os dispositivos móveis e os serviços multimídia na comunicação, pois estão transformando-a e ampliando a troca de informação (Gouveia e Silva, 2020; Sallai, 2012).
A infocomunicação oferece uma abordagem interdisciplinar que combina conhecimentos da ciência da informação, ciências da comunicação, sociologia e antropologia (Gouveia e Silva, 2020). O que permite uma compreensão mais abrangente dos fenômenos relacionados à informação e à comunicação no contexto digital.
Atualmente, as tecnologias de infocomunicação permitem que indivíduos e organizações compartilhem e acedam a informação de maneiras antes impossíveis. Exemplos incluem a Internet, telemóveis inteligentes, computadores, dispositivos multimídia e programas de comunicação, como o correio eletrônico, mensagens instantâneas e redes sociais. No entanto, há sutis diferenças na utilização do termo entre países de língua inglesa e portuguesa. Em países anglófonos, o termo é geralmente utilizado em contextos empresariais ou técnicos (Sallai, 2012: 5), enquanto em países lusófonos, é frequentemente utilizado em contextos culturais amplos, referindo-se ao impacto da tecnologia na sociedade e na comunicação (Gouveia e Silva, 2020: 29).
Enquanto conceitos como alfabetização mediática e competência informacional focam principalmente no indivíduo e em suas habilidades, a infocomunicação coloca uma ênfase maior no papel das tecnologias como mediadoras da informação e da comunicação (Custódio e Vechiato, 2016). Isso é crucial em um mundo onde plataformas digitais, algoritmos e redes sociais desempenham um papel central na disseminação e consumo de informação (Baldi e Rodrigues, 2016).
Por sua vez, a infocomunicação introduz o conceito de comportamento infocomunicacional (Borges, 2017), que vai além do comportamento informacional tradicional ao considerar também os aspectos comunicacionais e sociais da interação com a informação. Conceito que parece relevante em ambientes digitais, onde a comunicação e a informação estão intrinsecamente ligadas (Custódio e Vechiato, 2016).
Este estudo revisa a literatura em duas bases de dados que reúnem trabalhos em português para descrever como o termo “infocomunicação” é conceituado. Foram identificados e analisados 22 termos relacionados, estabelecendo um campo terminológico e conceitual compartilhado para pesquisadores e profissionais. Ademais de definir e interrelacionar termos como “competências infocomunicacionais”, “seres infocomunicacionais” e “comportamento infocomunicacional”, a análise facilita pesquisas futuras ao promover clareza conceitual e aprofundar a compreensão sobre os impactos da tecnologia na comunicação e na informação.
Ao explorar a manifestação da infocomunicação em contextos organizacionais, sociais e pessoais, o estudo evidencia sua interdependência com outros conceitos e reforça sua relevância teórica. Mais do que um novo conceito, a infocomunicação integra e amplia abordagens existentes, oferecendo uma perspectiva interdisciplinar essencial para compreender os desafios e oportunidades da era digital.
Metodologia
A metodologia utilizada foi orientada por uma revisão integrativa da literatura (Whittemore e Knafl, 2005: 546), um critério reconhecido e validado, que permite sintetizar e integrar diferentes conceitos e estudos sobre o tema. Essa abordagem é adequada para mapear o estado da arte de um conceito emergente, como é o caso da infocomunicação. Desta forma, foi possível resumir, descrever e integrar diferentes conceitos sobre infocomunicação. O objetivo foi compreender o conceito em português e identificar seus termos relacionados. Limitamos a revisão às bases de dados Brapci e B-On, escolhidas por possuírem documentos em português na área das ciências da informação e comunicação, adicionalmente permitirem a aplicação de filtros.
As equações de pesquisa incluíam o termo “infocomunica*”. A utilização do truncamento “*” permitiu a recuperação de variações do termo, como “infocomunicação” e “infocomunicacional”. Realizamos as pesquisas em julho de 2022. Filtramos os resultados utilizando ferramentas dessas bases de dados, especificamente no campo In Title, opção pela língua portuguesa e artigos completos. Por ser um tema relativamente novo, não aplicamos nenhum filtro temporal. Excluímos documentos referentes a resumos expandidos, pesquisas em andamento e recensões. Após a recuperação dos documentos, procedeu-se à leitura dos títulos, resumos e palavras-chave para identificar a presença dos elementos necessários para conceituar os termos investigados.
Depois, categorizamos os documentos selecionados através de uma matriz de síntese (Klopper, Lubbe e Rugbeer, 2007: 270), que contribuiu com a organização e comparação dos conceitos investigados. Inicialmente, as categorias estavam relacionadas com variações do termo infocomunicação, como “infocomunicacional” ou “infocomunicacionalmente”. No entanto, à medida que identificamos termos associados à infocomunicação, como “competências infocomunicacionais”, criamos categorias para agrupar esses termos. Após a categorização e revisão da informação contida nos documentos, cada um foi lido e confrontado entre si para compreender possíveis variações de conceitualização entre os autores.
Resultados da pesquisa
Foram recuperados 20 documentos que, ao serem analisados através da revisão integrativa, forneceram 22 termos agrupados em 9 tópicos que serão descritos mais adiante (Apêndice 1). Durante a leitura dos documentos selecionados, observou-se que havia uma autora frequentemente citada -Jussara Borges- e termos recorrentes como “competências infocomunicacionais”. Para quantificar essas observações, utilizou-se o programa VOSviewer em versão 1.6.19 para MacOS, que permite a construção e visualização de redes bibliométricas. Através desse programa verificou-se a importância da autora Jussara Borges nos documentos (Figura 1), bem como a recorrência do termo “competências infocomunicacionais” (Figura 2).
Fuente: elaborado pelos autores através do VOSviewer (2023)
Figura 1 Autores citados nos documentos recuperados
Fonte: elaborado pelos autores através do VOSviewer (2023)
Figura 2 Termos mais referenciados nos documentos recuperados
Na Figura 1, observa-se proporcionalmente o número de referências a Jussara Borges na dimensão do círculo e suas conexões com outros autores, sendo essa uma das autoras mais produtivas em estudos relacionados à infocomunicação em português, especialmente sobre competências infocomunicacionais.
Na Figura 2, é possível observar o número de referências a “competências infocomunicacionais” em comparação com outros termos. Muitos documentos recuperados abordam esse termo. No entanto, o estudo foca-se não apenas nos termos mais referidos, como apresentado na Figura 2, mas também naqueles que se relacionam com “infocomunicação”.
Discussão
Infocomunicação e e-infocomunicação
Na língua portuguesa, “infocomunicação” é um termo derivado de ‘informação’ e ‘comunicação’, refletindo a ideia de que a informação só existe quando inserida em um processo de comunicação (Custódio e Vechiato, 2016; cf.Vechiato e Vidotti, 2014). A infocomunicação é simultaneamente um elemento constitutivo da cultura e uma expressão funcional de um objeto de estudo em análises sociológicas e antropológicas, com o contributo da ciência da informação (CI). É descrita como um arco processual ou ciclo dinâmico que abrange a génese/produção do fluxo informacional; a organização e representação da informação; e a receção, busca e utilização da informação; ou seja, o comportamento informacional (Gouveia e Silva, 2020: 16).
Há tentativas de expandir o termo, como a inserção da partícula “e-”, formando “e-infocomunicação”, “uma versão com ligeiros ajustes em relação à infocomunicação” (Gouveia e Silva, 2020: 26). Referindo-se ao livro E-infocomunicação: estratégias e aplicações de Brasilina Passarelli, Armando Malheiro da Silva e Fernando Ramos (2014), os autores afirmam que o “e-” é uma tentativa de enfatizar a informação como infocomunicação. Esse “e-” também pode estar relacionado à utilização da Internet, onde os indivíduos adquirem competências de e-infocomunicação (Rocha e Silva, 2016: 46).
Por sua parte, os ambientes digitais amplificaram a infocomunicação. Desta forma, Pivetta, Saito e Ulbricht (2020: 74) mencionam que o conhecimento da linguagem dos ambientes digitais, seus recursos e a cultura dos interagentes são cruciais para a efetividade da infocomunicação, incluindo o desenvolvimento de artefatos que tornem esses ambientes acessíveis. Esse conhecimento é importante no cenário atual, imaterial e complexo, colocando o indivíduo na condição de infocomunicador, mesmo perpetuando uma condição de dominação (Daher Junior e Borges, 2021: 57).
Nesse cenário existem dois tipos de sujeitos: os seres unidimensionais e os seres infocomunicacionais. Daher Junior, Santos e Toutain (2022: 319) descrevem os seres infocomunicacionais como indivíduos diligentes, “ativos em processos pessoais e coletivos”, ou “como frutos de construções sociais estabelecidas por mercados”. Já os seres unidimensionais são resultado “de construções sociais por mercados, a partir de ideologias consolidadas na superestrutura da sociedade” (300).
A imaterialidade mencionada por Daher Junior, Santos e Toutain (2022: 316) inclui o ‘universo da infocomunicação’, onde a validação da informação é um tema central (Biscalchin e Almeida, 2011: 203). Neste universo, mecanismos como chats, fóruns, correios eletrônicos, videoconferências, e realidade virtual e aumentada influenciam a infocomunicação (Pivetta, Saito e Ulbricht, 2020: 72). Secundo Biscalchin e Almeida (2011: 203), compreender os fluxos de informação nesses mecanismos requer entender os valores e conexões estabelecidas pelos indivíduos, denominadas ‘capital social’, que podem influenciar a difusão da informação. Asi mesmo, os autores sinalam que as pessoas publicam informação baseando-se na sua percepção de valor.
Nesse universo ocorre o fenómeno infocomunicacional, que é a ponte entre o documento e a plataforma digital, unindo as duas facetas do complexo fenómeno infocomunicacional, simbiótico e social, facilitadas pelas tecnologias de informação e comunicação (TIC) (Silva, 2012: 88). A investigação do fenómeno da infocomunicação, estudada pela ciência da informação, se dá “através da confirmação, ou não, das propriedades inerentes à gênese do fluxo, organização e comportamento informacionais”, incluindo a origem, recolha, organização, armazenamento, recuperação, interpretação, transmissão, transformação e utilização da informação (Gouveia e Silva, 2020: 25; Silva, 2006).
Mediação da infocomunicação e processos de infocomunicação
Os indivíduos ou os chamados ‘seres infocomunicacionais’ e os sistemas infocomunicacionais (Daher Junior, Santos e Toutain, 2022: 300), bem como os mecanismos influenciadores da infocomunicação e até mesmo a própria ciência da informação (Custódio e Vechiato, 2016), contribuem para os processos ou atividades infocomunicacionais, incluindo a mediação da informação e a busca da informação (Gouveia e Silva, 2020: 30).
A mediação infocomunicacional é a ação de conectar a informação observada em ambientes informacionais e seus utilizadores. O termo “mediação infocomunicacional” resulta dos termos “mediação da informação” e “mediação informacional”, que têm distinções terminológicas, mas não conceituais (Custódio e Vechiato, 2016). Essa mediação possui dimensões políticas, económicas e sociais, relacionadas com inovações e experimentações em novos meios e recursos, servindo como cenário para a conexão entre as tecnologias de informação e comunicação e a criação de mensagens e significados. Isso inclui a contribuição dos utilizadores-consumidores para a melhoria de dispositivos e ferramentas (Biscalchin e Almeida, 2011: 195). Os processos de infocomunicação incluem a produção ou recolha, organização, armazenamento, recuperação, transmissão, pesquisa e transformação da informação (Gouveia e Silva, 2020: 31).
Os sistemas de informação atuam como mediadores entre os sistemas de infocomunicação e os sujeitos, interpretando fenômenos e contribuindo para os processos de intervenção social (Daher Junior, Santos e Toutain, 2022: 320). Entre as mediações infocomunicacionais estão as ações realizadas em ambientes informacionais analógicos, como bibliotecas, e ambientes digitais, como websites, por mediadores como profissionais da informação, profissionais de tecnologia da informação e utilizadores. Nos ambientes digitais, a mediação infocomunicacional e a evolução da web moldam o conceito de encontrabilidade da informação (Custódio e Vechiato, 2016).
Um dos desafios do processo de mediação é a partilha do significado da informação, ou seja, a interpretação da mensagem pelo recetor de forma próxima ao que o emissor quis dizer. Gouveia e Silva (2020: 22) referem a proposta hermenêutica de Capurro e Hjorland (2007) e suas relações com a cibersemiótica de Brier (2008); eles destacam a preferência pelo construtivismo piagetiano em vez do construtivismo social.
O processo de infocomunicação está cada vez mais saturado de tecnologia, precisando ser abarcado -contexto- e articulado -estrutura- juntamente com a sociologia, história da arte e antropologia nos diversos campos de estudo (Gouveia e Silva, 2020: 31). Pivetta, Saito e Ulbricht (2020: 75) comentam que, numa comunidade, o processo de infocomunicação faz parte da aprendizagem dos seus membros, como observado na infocomunicação visuoespacial de uma comunidade de surdos. Esse processo permite que a comunidade produza e compartilhe conhecimentos entre si e com ouvintes, exigindo um ambiente com suporte linguístico e ferramentas adequadas para interação (87). A configuração necessária inclui recursos como vídeo, transcrições e legendas, além do conhecimento da cultura dos interagentes para desenvolver artefatos que tornem os ambientes acessíveis (74).
Há ainda processos de apropriação infocomunicacional, onde os utilizadores atuam como protagonistas e agentes ativos na negociação do significado do processo infocomunicacional (Borges et al., 2012; cf. Borges, 2014).
As infocompetências ou as competências infocomunicacionais
De longe, a expressão mais referenciada em documentos relacionados com a infocomunicação é “competências infocomunicacionais”, por vezes escrita como “infocompetências” ou grafada com o acrónimo “InfoCom”. Esse termo parece ter surgido em meados de 2011, num trabalho que observa as competências infocomunicacionais em ambientes digitais nas organizações da sociedade civil de Salvador, Bahia (Borges, Silva e Barbosa, 2011), posteriormente inserido na tese de doutoramento de um dos autores sobre o mesmo tema (Borges, 2011; cf. Daher Junior e Borges, 2021).
Daher Junior e Borges (2021: 55) afirmam que o estudo das competências infocomunicacionais tem como precursores autores da ciência da informação, nomeadamente Borko (1968) e Capurro e Hjørland (2007). Esses autores comentam sobre uma série de interações entre os indivíduos em relação à informação, como a crítica, o questionamento, a argumentação, a comunicação e a manipulação de ferramentas de busca para obter a informação desejada.
Por sua vez, Borges (2011: 24) declara que “o desenvolvimento de competências infocomunicacionais pode ser visto como parte de um processo social atual, no qual indivíduos e organizações estão sendo confrontados com a necessidade de empregar um conjunto de competências requeridas” para a comunicação e interação com a informação através da utilização de meios eletrônicos.
Esta referência vai ao encontro do que Borges e Brandão (2017: 80) comentam quando escrevem que “o conceito [de competências infocomunicacionais] se assenta na capacidade de lidar com informação em qualquer meio ou formato e na capacidade de interagir com pessoas”. Desta forma, o indivíduo é capaz de se conectar com outras pessoas ou dispositivos que permitem aceder e contextualizar a informação necessária no momento adequado.
Essa percepção da utilização de meios e dispositivos eletrônicos leva Borges e Oliveira (2011: 305) a propor um complemento ao termo “competências infocomunicacionais”, inserindo a expressão ‘em ambientes digitais’ e referindo que esta expressão “parece atender mais completamente à necessidade de compreender a relação dos seres humanos entre si, por meio das tecnologias avançadas de informação e comunicação”. As autoras caracterizam as competências infocomunicacionais em ambientes digitais como a convergência de conhecimentos, habilidades e atitudes que possibilitam uma atuação adequada em cenários digitais (321). Propõem também um modelo ou sistematização das competências infocomunicacionais, observando que essas são sustentadas por três pilares: competências informacionais, comunicacionais e operacionais (307; cf. Borges, 2013; cf. Daher Junior e Borges, 2021).
Noutro trabalho, Borges (2014: 98) sistematiza as competências infocomunicacionais através de um padrão de análise que permite a comparabilidade entre observações empíricas e incentiva o desenvolvimento de análises complexas e, portanto, mais enriquecedoras sobre as competências. A autora afirma que as competências infocomunicacionais exigem capacidade analítica e crítica, e participação ativa e esclarecida nos processos sociais, através dos recursos disponíveis no ambiente digital. Dessa forma, as competências infocomunicacionais são influenciadas tanto pelas características do indivíduo, como a leitura, a escrita, a interpretação, o cálculo, a pesquisa, a interação, quanto pelas características do ambiente social que cerca esse indivíduo, como a ênfase dada à utilização de tecnologias, à partilha de informação e à participação em redes. O valor atribuído às próprias habilidades pode promover ou restringir o desenvolvimento do capital humano e intelectual (88).
Baldi e Rodrigues (2016: 54) expressam que as infocompetências refletem um conjunto abrangente de valores, atitudes e capacidades, destacando que uma experiência cultural rica implica competências infocomunicacionais culturalmente plurais e inconformistas, o que incluindo o desejo de presença digital e a sensação de ter o mundo ao alcance da pele (Gumbrecht, 2010).
Daher Junior e Borges (2021: 59) defendem que as competências infocomunicacionais devem ter um estatuto próprio, que vá além de uma concepção lógica indutiva ou dedutiva, nutrida por uma identidade mercadológica e pela revitalização de discursos anglófonos e francófonos. Do mesmo modo, Daher Junior, Santos e Toutain (2022: 311) afirmam que as reflexões sobre informação e comunicação podem estabelecer um ‘paradigma infocomunicacional’ que transcenda as competências necessárias para a sobrevivência na modernidade, avançando para uma abordagem crítica e facilitadora de processos sociais participativos. Para os autores, as competências infocomunicacionais exigem atitudes relacionadas à informação, comunicação e operação das tecnologias da informação (312), promovendo uma transgressão e ressignificação dessas competências, empoderando os indivíduos em suas relações com o mundo e carregando uma concepção crítica e autocrítica da comunicação e informação (Daher Junior e Borges, 2021: 55).
Brandão e Borges (2018: 64) concordam, reconhecendo que as competências infocomunicacionais estão ligadas ao fator metacognitivo, permitindo autoavaliação e ampliando a autopercepção enquanto mediador. Borges e Sousa (2019: 54) destacam que essas competências contribuem para o desenvolvimento de competências metacognitivas, envolvendo conhecimentos -saber-, habilidades -saber-fazer- e atitudes -saber-ser- no processo de alfabetização informacional (Borges, 2018; Silva e Borges, 2020). Borges (2011; 2018: 137) inclui a decisão sobre quando e por que agir.
Silva e Borges (2020: 112) mencionam que as competências infocomunicacionais, incluindo a alfabetização mediática, fazem parte da relação ensino-aprendizagem, potencializando o desenvolvimento de cidadãos críticos e transformadores, contribuindo para a aprendizagem ao longo da vida (Borges, 2018: 131).
Borges (2017: 42) identifica 7 elementos que compõem as competências infocomunicacionais: gestão de conteúdos, avaliação da informação, edição colaborativa, estabelecimento e manutenção da comunicação, distribuição e disseminação eficaz de conteúdos, participação em ambientes de discussão e colaboração, e desenvolvimento de redes sociais (cf. Borges e Brandão, 2017). Esses elementos estão presentes tanto nas competências em informação e comunicação (Borges e Brandão, 2017; Brandão e Borges, 2018) quanto nas competências operacionais (Borges et al., 2012; Santos, Sousa e Borges, 2019).
Posto isto, por um lado, o conceito da gestão da informação tender a ser mais técnico e organizacional, se concentrando na organização, no armazenamento, na recuperação e na disseminação de informação. Por outro lado, a infocomunicação incorpora a gestão da informação e considera os aspectos comunicacionais e sociais da informação. Ela explora como a informação é mediada por tecnologias e como os indivíduos e grupos interagem com ela em contextos digitais, incluindo redes sociais, plataformas de comunicação e ambientes virtuais.
A síntese das competências infocomunicacionais em ambientes digitais proposta por Borges (2014: 84) foi motivada por relatórios como o do Comitê Gestor da Internet no Brasil, que indicam que 89 % dos brasileiros utilizam a Internet para comunicação e 84 % para buscar informação. A motivação para utilizar a informação é crucial, pois “se a tecnologia e a informação não forem percebidas como úteis, serão desconsideradas” (88).
Borges (2014: 98) argumenta que as competências infocomunicacionais não devem ser vistas como um fim em si mesmas, mas sim pela sua aplicação e utilidade. Para que sejam úteis, é necessário discernir suas aplicações e estar atento às oportunidades oferecidas pela Internet e pelo ambiente web.
A avaliação das competências infocomunicacionais é feita através de indicadores que visam entender quais competências estão evoluindo e como impactam a vida acadêmica, profissional e social dos indivíduos (Borges e Brandão, 2017: 78). Cada indivíduo possui diferentes níveis de competências infocomunicacionais, variando conforme a perspectiva de observação, características do sujeito ou organização que as utiliza, e o contexto social em que são observadas (Borges e Oliveira, 2011; cf. Borges, 2017).
Borges e Brandão (2017: 83) argumentam que no ciberespaço atual, onde os indivíduos produzem, consomem e compartilham informação, há uma aprendizagem colaborativa. Eles ressaltam que o desenvolvimento de competências não ocorre automaticamente pelo simples contato com tecnologias, mas através das relações com a informação e entre as pessoas (84). Existem barreiras para o desenvolvimento de competências infocomunicacionais. Os autores também mencionam barreiras na educação formal, que se limitam a experiências locais e circunstanciais, a dinâmica e o fluxo informacional cotidiano dos indivíduos e as fragilidades na comunicação -ouvir, entender e relacionar-se- possibilitadas pelas tecnologias da informação (79).
Borges (2017: 40) destaca que o pensamento crítico aprimora as competências infocomunicacionais, aumentando a consciência do indivíduo sobre si mesmo e sua relação com a informação e outras pessoas. Isso é referido como comportamento infocomunicacional.
Não há consenso sobre a inclusão do aspecto comunicacional no conceito de “competência em informação”. Daher Junior e Borges (2021: 59) apontam que muitos pesquisadores rejeitam essa inclusão, argumentando que a comunicação já está contemplada no conceito de competência em informação ou questionando se isso não seria um cruzar de fronteiras para a ciência da comunicação.
Daher Junior, Santos e Toutain (2022: 317) , citando autores como Marcuse (1964), Morin (2011), Hall (1997) e Santos (1978), referem-se a lacunas presentes nos desenhos futuros e disputas por ideias e territórios, o que pode enfraquecer a tendência infocomunicacional.
Competências em comunicação
A competência em comunicação é fundamental nas competências infocomunicacionais, permitindo que os utilizadores assumam o controle de suas intervenções desejadas (Borges, 2011; 2018; Silva e Borges, 2020). Essa competência capacita os utilizadores a identificar necessidades, estabelecer e avaliar a comunicação (Brandão e Borges, 2018), decidir quando e por que realizar ações, como relacionar-se com as pessoas (Borges e Sousa, 2019), criar contatos de forma ética e legal (Borges e Oliveira, 2011; Santos, Sousa e Borges, 2019), e evitar a disseminação de informação equivocada (Borges, 2018; Jacobi e Borges, 2021). Além disso, contribui para adaptar a produção ao público-alvo, cooperar e participar de processos sociais (Borges e Brandão, 2017; Daher Junior e Borges, 2021), bem como para articular, negociar e argumentar (Borges, 2011; Silva e Borges, 2020). No contexto do ciberespaço, essa competência potencializa o desenvolvimento de laços sociais de mediação, interação e colaboração (Borges, 2011; 2018; Borges e Oliveira, 2011; Brandão e Borges, 2018; Daher Junior e Borges, 2021). Por outras palavras, representa a habilidade de construir conhecimento por meio de interações em linha, promovendo uma reflexão crítica sobre a produção pessoal e as dinâmicas das redes sociais (Borges, 2017).
Competência em informação
A competência em informação, como parte das competências infocomunicacionais, engloba a utilização, produção e gestão de diversos tipos de informação de qualidade (Borges, 2011; Jacobi e Borges, 2021), em um contexto de cultura participativa (Borges e Brandão, 2017). Isso inclui habilidades como localizar, avaliar criticamente e aplicar informação (Borges, 2011; 2018; Borges e Brandão, 2017; Borges e Oliveira, 2011; Brandão e Borges, 2018; Daher Junior, Santos e Toutain, 2022; Silva e Borges, 2020). Adicionalmente, essa competência promove a compreensão das estratégias de busca e seleção de informação (Borges, 2018), capacita o indivíduo a ser proativo na escolha de fontes e suportes de informação (Borges, 2011; 2018; Silva e Borges, 2020), e facilita a criação de conteúdos a partir do reconhecimento das necessidades de informação (Borges, 2014). Essa habilidade também está ligada ao desenvolvimento de competências metacognitivas, como saber quando e por que lidar com diferentes conteúdos (Borges e Sousa, 2019; Daher Junior e Borges, 2021).
Competências operacionais
As competências operacionais, como parte das competências infocomunicacionais, abrangem o conhecimento e habilidades para utilizar as tecnologias da informação e comunicação (Borges e Oliveira, 2011), incluindo dispositivos tecnológicos como computadores (Borges, 2011; Silva e Borges, 2020). Isso envolve atividades como operar motores de busca e dispositivos de comunicação (Borges, 2018; Daher Junior, Santos e Toutain, 2022). Essas competências facilitam a interação em espaços virtuais e a cooperação em linha (Borges, 2014; Borges e Brandão, 2017), além de contribuir para a mediação da informação (Borges e Oliveira, 2011; Santos, Sousa e Borges, 2019). Por fim, permitem uma reapropriação criativa das tecnologias digitais (Baldi e Rodrigues, 2016).
O comportamento infocomunicacional
No mundo atual, as competências se desenvolvem em um ambiente descrito por Daher Junior e Borges (2021: 56) como “relativista, fenomênico”, influenciado por contextos socioculturais específicos que exigem habilidades para tornar os indivíduos autônomos, reflexivos e protagonistas. Esse cenário gera comportamentos complexos nos indivíduos, que navegam entre ordem e desordem, aprendendo competências que surgem à margem da ciência e da sociedade ausente do conhecimento estabelecido.
Borges (2017: 40) destaca que a capacidade de pensamento crítico sobre o próprio comportamento frente à informação e à comunicação resulta em maior consciência de si e das relações com a informação e outras pessoas, referindo-se ao comportamento infocomunicacional (ver seção “As infocompetências ou as competências infocomunicacionais”).
O comportamento infocomunicacional é essencial para os estudos de infocomunicação, sendo um “constructo dinâmico, auto-organizado pelas práticas sociotécnicas” (Daher Junior e Borges, 2021: 56). Gouveia e Silva (2020: 31) definem esse comportamento como abrangendo a busca, utilização e reprodução de conteúdos mediados, relacionando-o às ações dos indivíduos em um ambiente digital codificado audio-visualmente, exemplificado pela análise da cultura visual.
Baldi e Rodrigues (2016: 52) observam que os comportamentos infocomunicacionais geram novos cenários e desafios nos ambientes digitais, que vão além das competências operacionais e informacionais, incluindo a estruturação de expectativas e hábitos específicos e a construção de relações mediadas por algoritmos que podem ocultar essa mediação. De maneira adicional, o comportamento infocomunicacional enfrenta novas tecnologias que criam um legado identitário digital, podendo resultar em uma construção alucinatória de imortalidade e levantando questões legais, testamentárias, psicológicas e culturais, criando ‘fantasmas digitais’.
Considerações finais
O termo “infocomunicação” é parte de um paradigma (Daher Junior e Borges, 2021) e representa um fenômeno (Gouveia e Silva, 2020) de natureza infocomunicacional (Borges, 2014). Esse conceito ganha relevância no contexto atual de convergência tecnológica e cultura digital, ao integrar conhecimentos da ciência da informação e das ciências da comunicação. Dessa forma, a infocomunicação oferece uma abordagem interdisciplinar que amplia e atualiza conceitos já estabelecidos, como a alfabetização mediática e a competência informacional.
O fenômeno infocomunicacional ocorre no universo da infocomunicação (Biscalchin e Almeida, 2011) através do fluxo infocomunicacional (Gouveia e Silva, 2020), envolvendo objetos de estudo e seres infocomunicacionais com comportamento infocomunicacional (Baldi e Rodrigues, 2016). Esse fluxo passa por sistemas infocomunicacionais (Daher Junior, Santos e Toutain, 2022), guiados por estratégias infocomunicacionais (Gouveia e Silva, 2020: 30) que desenvolvem competências e habilidades infocomunicacionais nos indivíduos (Borges e Oliveira, 2011; Rocha e Silva, 2016). A infocomunicação não busca substituir os conceitos existentes, mas sim complementá-los, oferecendo uma estrutura conceitual que reflete as complexidades do mundo digital contemporâneo.
As competências infocomunicacionais são influenciadas por atividades e ações tecnológicas e infocomunicacionais, incluindo mediação (Custódio e Vechiato, 2016) e apropriações (Borges, 2014). Possuem diversos componentes e podem ser desenvolvidas (Borges e Brandão, 2017) e sistematizadas (Borges, 2014) em um modelo com estatuto próprio (Daher Junior e Borges, 2021). Essas habilidades guardam semelhanças com a metaliteracia e o conectivismo, sendo investigadas sob a lente da teoria da complexidade (Brandão e Borges, 2018; Daher Junior e Borges, 2021). Sua relevância prática é evidente em contextos como educação, gestão organizacional e políticas públicas, onde a integração entre informação e comunicação mediada por tecnologias é crucial.
Dado o escopo desta investigação, não foram incluídas na revisão questões relacionadas a teorias como a teoria da complexidade (Cuevas-Cerveró, Marques e Paixão, 2014), do conectivismo e da metaliteracia (Borges e Brandão, 2017). Além disso, permanecem lacunas na pesquisa, como discordâncias sobre a inclusão do aspecto comunicacional nas competências informacionais, bem como outros desafios conceituais e metodológicos na área da infocomunicação (Daher Junior e Borges, 2021). Essas questões poderão ser exploradas em estudos futuros, ampliando ainda mais a compreensão do fenômeno.
Em síntese, a infocomunicação representa uma evolução teórica necessária para abordar as dinâmicas complexas da sociedade da informação e da comunicação no século XXI. Longe de ser redundante ou inconsistente, ela enriquece o diálogo entre pesquisadores e profissionais, promovendo uma compreensão mais profunda e contextualizada dos desafios e oportunidades que surgem no ambiente digital.